Gazeta lLterária nº 3 ( vol. duplo verão/outono). Textos de Urbano Tavares Rodrigues, Manuela Espírito Santo, Arnaldo de Pinho, Paulo Moreira Lopes, José Manuel Teixeira da Silva, Eugénio de Andrade, Luís Veiga Leitão, Domingos Lobo, Alexandre Teixeira Mendes, Paulo José Borges, X. l. Mendez Ferrín, Teolinda Gersão, Salvato Teles de Menezes, Ernesto Rodrigues, Edgar Silva, Anabela Dinis Branco de Oliveira, David F. Rodrigues, Pires Laranjeira, Arnaldo Saraiva, Ana Isabel Moniz, Leonor Martins Coelho, Ilse Pollack, José Manuel Mendes, Ramiro Teixeira, Ferreira de Castro. João Paulo Coutinho e Marco (fotos). design: Abigail  Ascenso. (ilustração da capa) Alberto Péssimo.

P.V.P. : 10 euros

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[Fragmentos dos diários portugueses inéditos, de Ilse Pollack, na Gazeta Literária]

Mirandela, Agosto de 1979
O lugar deixa em mim uma impressão penosa, um dos hotéis é caro e barulhento, o outro sujo e sem janelas. Sigo para Romeu, que dizem ser a aldeia-modelo dos tempos de Salazar. A aldeia de Romeu fica a três quilómetros de distância da estrada, o primeiro lugar no caminho traz o nome de Jerusalém do Romeu. Um nome assim pomposo exige alguma encenação. E de facto tudo aí é encenado, típico: a adega, a escola, até os azulejos das casas.
A excepção é a Pensão Maria Rita, à saída da terra. Todos me olham espantados, como se eu tivesse caído da Lua e aterrado no lugarejo de Jerusalém do Romeu. Faz-se silêncio em todas as mesas. Os homens, ainda há pouco a petiscar e a conversar, arregalam os olhos. A criatura lunar segue a filha do estalajadeiro, que lhe mostra o quarto. Mesmo os que não têm lavatório são tão caros como os da pensão de três estrelas, com casa de banho, em Miranda. E ainda por cima temos de aguentar todas aquelas sinistras caras-de-pau.
Nos pratos pintados, Maria Rita faz o deleite do «cavalheiro cliente». A Maria Rita desta noite é uma rapariga triste, e o seu uniforme é um fato de prisioneiro, às riscas cinzentas.
Nas mesas, a conversa volta a animar-se. Mas subitamente faz-se silêncio. E logo de seguida todos os homens se levantam, uns atrás dos outros. Os discursos oleosos perlam, como saídos de garrafas de champanhe, e a explicação está num senhor de nome Champalimaud. Tratar-se-ia do egrégio capitalista de Portugal que fugiu para o Brasil depois da Revolução dos Cravos? Custa a crer que se encontre entre os notáveis do círculo provinciano aqui presente! E no entanto, onde melhor do que aqui, nesta antiga aldeia modelar do fascismo português, se poderia imaginar recepção mais festiva a um antigo patrão?

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